Alentejo com um antropólogo

A geografia

O Alentejo é uma região do sul de Portugal, sendo a maior do país em extensão. É um grande planalto com algumas serras, montanhas e promontórios. Tem rochas com valor económico como mármore e granito, exploradas para embelezar ruas, cidades e monumentos. As florestas de sobreiros e azinheiras, ambas árvores autóctones, deram origem às culturas de montados, onde apascentam o gado desde tempos muito remotos. A biodiversidade na região é das maiores do mundo, com uma enorme diversidade de fauna e flora. Contudo, as ameaças de extinção de várias espécies tem colocado desafios à sustentabilidade ambiental.

Na região temos quatro estações, Primavera e Verão, Outono e Inverno. Tanto a Primavera como o Outono são estações amenas, sendo que, na Primavera os campos se tingem com flores de todas as cores. No Outono as paisagens também ganham cores muito agradáveis. Quanto ao Verão e Inverno, são estações de extremos, com Verões muito quentes e secos e Invernos que podem ser frios e chuvosos.

Os principais rios da região são o Tejo, o Guadiana e o Sado. Facto curioso: as três bacias hidrográficas encontram-se num lugar chamado Divôr (do latim Divorum, assim chamado pelos Romanos e que significa o lugar onde os Deuses se encontram para fazer festa e dançar: informação obtida em: “Francisco Bilou, 2010, A Refundação do Aqueduto da Água da Prata, em Évora”), próximo da cidade de Évora, no centro da região.

As pessoas

A maioria das pessoas mais velhas viveram num mundo rural, numa sociedade tradicional e antiga. No século XX a mecanização da agricultura veio transformar esta realidade. Desde então a sociedade passa a ter uma vida mais urbana, onde as novas profissões reflectem essa dinâmica e o seu lado moderno. Apesar destas mudanças, a região continua a ter uma baixa densidade populacional.

Uma das vantagens da tardia entrada na modernidade é a riqueza de tradições que animam as pessoas da região do Alentejo e que chegaram até aos nossos dias. Recentemente foram classificados Património da Humanidade, pela UNESCO, o Cante Alentejano (2014), a Arte Chocalheira (2015) e os Bonecos de Estremoz (2017). Outros artigos de artesanato, genuínos frutos da imaginação e habilidade das pessoas mais velhas, são ainda possíveis de encontrar em lojas, feiras e mercados.

A hospitalidade é um dos valores mais nobres que caracterizam as pessoas do Alentejo. A arte de bem-receber os visitantes dá origem a relações vivas numa partilha de saberes, como é por exemplo a gastronomia, onde estão presentes à mesa produtos locais como são o pão, o azeite e o vinho, mas também as maneiras de estar, os utensílios de cozinha e toda a envolvente da casa.

Os alentejanos são herdeiros de cruzamentos de várias culturas europeias e mediterrânicas, a partir das quais criaram uma cultura própria, que se reflecte na linguagem, com vocábulos únicos e sotaque característico. Temos um misto de tradição e modernidade que promete momentos enriquecedores a todos os visitantes.

A economia

A cortiça é sem dúvida a matéria-prima mais valorizada do Alentejo, sendo a região a maior produtora do mundo. Hoje em dia a diversidade de artigos feitos a partir da cortiça sofreu um grande aumento com as novas potencialidades tecnológicas que permitem uma maior flexibilidade ao material. No antigamente, era já um produto usado tradicionalmente com variadas aplicações na vida quotidiana.

Alguns dos produtos mais emblemáticos desta região estão ligados à gastronomia, tendo a mesma chegado a ser conhecida como o celeiro de Portugal. O pão está sempre presente na mesa de um alentejano, assim como as azeitonas, o azeite, os queijos e o vinho. Estes produtos chegaram ao Alentejo há milénios e continuam a marcar a identidade regional. O porco preto é outro dos produtos mais importantes da região, do qual se aproveita tudo! Daqui fazem-se iguarias únicas usando ervas aromáticas características, como louro, coentros, salsa, poejo, hortelãs e outras, que fazem com que os sabores sejam deliciosos, saudáveis e inesquecíveis.

 

Noutros tempos, o artesanato utilitário, como as loiças provenientes das olarias, teve uma produção de tal ordem que a região, segundo o geógrafo Orlando Ribeiro, chegou a ser conhecida como uma civilização do barro. Nos tempos que correm as loiças decorativas são aquelas que fazem continuar ainda este artesanato, com motivos ingénuos e cores vivas, variando de lugar para lugar. Ainda há que referir as mantas alentejanas e os tapetes de Arraiolos, que são artesanato do mais genuíno da região e que ainda são manufacturados.

A História

...e a nossa História atravessa milénios. Os povos que se fixaram pelo Alentejo deixaram marcas na paisagem, nos costumes e nas tradições. Chegaram à região vindos de longe, do Norte e Leste da Europa, Médio Oriente e Norte de África. Toda a Península Ibérica foi palco de intercâmbios culturais e misturas de povos de todo o mundo antigo. São disso testemunho os monumentos que ainda se encontram em cada povoação, assim como na língua e na cultura popular.

Celtas, fenícios, gregos, romanos, visigodos, mouros, árabes, todos deixaram marcas da sua passagem, as suas heranças, no Alentejo. Com a conquista portuguesa aos mouros, a região entra numa nova fase da sua história, mas continua sendo um sítio multicultural e tolerante, onde o espírito criador deu origem a uma riquíssima arquitectura híbrida de que é exemplo o estilo manuelino, com origem na cidade de Évora e que depois se disseminou pelo reino. É no Alentejo que, ainda hoje, esta mistura de diferentes culturas tem maior expressão.

Évora, no coração do Alentejo, é a cidade monumental onde, durante os Descobrimentos, os reis de Portugal escolhem viver durante largos períodos. É nesta cidade que, no final do século XV, Vasco da Gama é incumbido da missão de chegar à Índia por caminho marítimo. Centro nevrálgico da região desde a sua fundação pelos celtas, Évora atinge nos séculos XVI e XVII o seu auge, para assistir, após o encerramento da Universidade em 1757, a uma lenta decadência, até o turismo, na segunda metade do século XX, animar o centro histórico (Património Mundial pela UNESCO, 1986) dinamizando as ruas, a cultura, o comércio e toda a economia.

 

Mas o que permanece ainda um mistério para os especialistas, uma vez que não há provas, é saber como e para que foram construídos – com enormes pedras de granito – os monumentos megalíticos. O Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, que data de há cerca de 7000 anos e as Antas desse mesmo período que estão um pouco por todo o lado. Sabido é que estes povos praticavam agricultura e pastorícia, mas pouco se sabe sobre a sua organização social.

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